A Alice, o churrasco e a distopia

 
 


alice and rabbit by Holly Clifton Brown

Percorro a rua devagarinho, passo a passo, rua após rua, a fio, a eito, sem jeito, em quase completo desvario e desnorte. É que me cheira e sabe a morte. É por todo o lado a mesma sina, a mesma desdita, a mesma sorte. Agarro a mão pequenina e engelhada e fria da minha mãe, como se ela ainda me pudesse protejer. Como se protecção houvesse, braço que nos abraçasse às duas os ombros desanimados e descaídos e nos guiasse a um outro caminho.

– “Ali era a loja do Sr. Justino, lembras-te?”

Se me lembro. E lembro-me da Menina Gabriela, a empregada gorduchinha e sempre sorridente que, pela calada e no maior sigilo, com uma piscadela de olho matreira e um borboletear de lábios e dos dedos ágeis, me consertava as malhas caídas das meias de vidro que eu não tinha permissão nem para ter nem de usar. Muito depois de se deixarem de usar meias de vidro e de a moda passar a ser as feitas de uma coisa qualquer que eram só mesmo para usar e deitar fora, e  muito depois de deixar de haver quem consertasse as malhas que caíam a torto e a direito e por dá cá aquela palha, e por mais cuidado que eu tivesse, nas meias que agora me era permitido usar como menina crescida mulher feita, a loja do Sr. Justino estivera lá, naquele esconsinho maneirinho e agradável entre as outras lojas, maiores e mais vistosas. Nela, já mãe, comprara eu fraldas de algodão puro. E pijamas para menina de três anos. E collants de malha de lã para menina de onze anos. E lenços de seda para dar de presente à minha mãe. E o roupão de seda que acompanharia o meu pai até à morte. E…

– “E ali era a loja das malas, lembras-te?”

A voz da minha mãe é cansada e triste, pesada, tal como a rua é pesada e triste e fria e engelhada. Se me lembro. Era onde comprávamos as luvas. Onde, naquele Natal, a mãe decidira comprar-me aquelas muito especiais, de pele maciinha e forradas a pelinho. Porque eu já era menina grandinha, e capaz de olhar por elas e de não as perder. Onde a mãe, noutro Natal, me comprara a minha primeira carteira de mão, de cabedal castanho e duas alças de pôr e tirar: “– A menina está a ver,” demonstrara-me o Sr. Conde, “sem as alças pode usar a carteira como pochette, debaixo do braço, talvez para sair à noite; com uma só alça, assim, usa-se na mão; enquanto que com as duas alças pode usá-la ao ombro, assim, como é a moda agora…” A mesma loja onde eu, décadas depois, compraria para a minha filha a sua primeira carteira, um moranguinho vermelho com alça de usar a tiracolo. Se me lembro?

– “Ali era onde costumávamos ir almoçar juntas às quartas-feiras, lembras-te?”

Lembro-me. Eram os anos 70 chegados ainda não havia muito, e partilhávamos um prato de um menu muito modernamente chamado de “Menu dos Combinados”, e onde uma bifana ou um bitoque apareciam transfigurados com pickles e croutons e outros ingredientes e molhos à inglesa, ou à francesa, ou à italiana, ou à espanhola, ou fosse de onde fosse que fosse a moda da semana, do dia. O restaurante onde haviamos comido spaghetti pela primeira vez, sentadas nos bancos altos do bar, e havíamos rido a bandeiras despregadas ao imitarmos os cãezitos do filme do Walt Disney. “Tu és a Lady, Mamy, toda linda e impecável…”

– “E ali era aquela joalharia pequenina, a do Sr. Manuel, lembras-te, o aprendiz do Sr. Cruz, onde eu te comprei…”

– “Onde me compraste o alfinete de prata em forma de cobra.”

– “Ai, lembras-te…!”

Sinto-lhe o sorriso baixinho e aconchegado a bailar-lhe nos lábios. Agrada-lhe saber que me lembro destas coisas assim. Do alfinete de prata, e da loja onde mo havia comprado, e de todas as histórias e pessoas e coisas que haviam feito parte das nossas vidas durante anos e anos a fio. Como poderia não me lembrar?

Quase lhe pergunto se sabe o que será feito de todas essas pessoas. Pergunto-me a mim própria como é possível pessoas que se conhecem, com quem se convive dia após dia durante décadas, caírem assim dos cantos do mundo, desaparecerem sem deixar nem rasto nem rastilho. Que talvez ela soubesse. Mas para quê perguntar, para quê querer saber, para quê, por quê. Um eco bate-me à porta: “- E em nome de quê, tudo isto?”

Porta sim, porta sim, porta não. Duas em cada três lojas de pequeno comércio estão fechadas. Não têm sequer os habituais cartazes de arrendamento colados às montras e às portas. Para quê? Não há quem as arrende. Foram devoradas, as lojitas e os seus donos, os ossos escuchinados até ao ultimo tutano pela onda do bicho papão. O bazar onde me havia sido comprado o meu ursinho de peluche amarelo e todos os meus brinquedos, e onde eu comprara os brinquedos da minha filha: costumava ser naquela esquina ali. Agora está tudo fechado, as vidraças das montras forradas a folhas de jornais amarelecidas pelo sol agreste do verão. O hospital das bonecas, no esconsinho da cave de uma outra loja, onde as minhas bonecas haviam sido consertadas primeiro, e mais tarde as da minha filha. “O senhor é o senhor doutor das bonecas?” Perguntara-lhe eu da primeira vez, e ele rira e pronunciara por entre os dentes ralos que não senhor, que não era doutor de coisa nenhuma pois nunca tinha ido à universidade, mas que era assim como que o enfermeiro da bonecada. E eu um dia, num dos meus célebres “momentos estranhos”, tinha chamado ao velho senhor de Sr. Enfermeiro Geppetto: é que no livro da história do Pinocchio que eu acabara de ler havia uma ilustração que era tal e qual a lojinha do hospital das bonecas, até ao detalhe dos fantoches de madeira talhada e polida, vestidos apenas de cordões de algodão branco retorcido, que pareciam despenhar-se dos tectos ao encontro das nossas cabeças. Até ao homem, idoso e de nariz adunco, alto e magro e emaciado, seco de carnes e modos e cheio de magia, uma magia tão grande que num instante curava a falta de voz da Ruiva, ou a perna partida da Loura sem nem mesmo ela precisar de gesso ou de muletas ou de ficar hospitalizada, como as outras pobres bonecas que se perdiam de tédio e convalescença por todos os cantos. Era sempre o pai que me levava lá. Pegava-me ao colo à porta, mesmo antes de entrarmos, para eu não poder andar a mexericar por aqui e ali, nas muitas bonecas que sempre se estendiam pelas estantes que escondiam as paredes. À altura dos ombros dele, as caras enceradas dos fantoches fitavam-me desconcertadamente olhos nos olhos, os seus longos narizes a quase tocarem o meu, como que a pedirem-me socorro, alívio de tão terrível e pesado castigo.

Ainda da última vez que viera para estes lados, na minha pequena peregrinação para mostrar finalmente ao meu marido inglês todos os cantos por onde a mulher dele, portuguesita meia estouvada e de coração na manga, crescera e vivera todas as décadas da sua vida antes de os nossos caminhos se cruzarem, todas essas lojas ainda aqui estavam. Espreitavam-me e guardavam-me os passos que eu pensei vir um dia a repetir, mais uma vez, mas desta vez com o meu neto pela mão. E eu tinha espreitado pela entrada do hospital das bonecas, e comentara na brincadeira para o meu marido que pelos vistos as emergências médicas, tais como as pacientes, haviam evoluído com os tempos. Ao que ele respondera, britânico e contido, que era inevitável. Eu sabia; mas preferira, naquele dia e desde então, não saber. É que enfiar a cabeça pelo postigo da porta do hospital das bonecas e mergulhar naquele mundo fora como que a poção mágica que me permitira voltar a ser Alice, voltar sempre a ser Alice e trocar de tamanho e retomar a magia.

É o fim de uma era. E de repente vem-me à ideia a minha avó, de corpo inteiro e viva voz. O modo como ela fora incapaz de compreender um mundo em turbulenta mudança. O modo como se fechara ao desconhecido do futuro, tão incerto e agreste e incongruente com tudo o que ela sabia, tudo o que ela sempre soubera e tivera como certo, e então batia as mãos de desespero e agravo e estalava a língua e agarrava finalmente os joelhos ossudos e dessecados e clamava em meia voz o seu queixume:

– “Ai, cala-te… cala-te lá! É o fim do mundo, digo-te, Nina, é o fim do mundo!”

E é assim. É o fim do meu mundo. Não protesto eu um churrasco de lata pintada de vermelho berrante, que o meu padrinho trouxera desde a capital até à nossa aldeia, novinho em folha e brilhante e embrulhado em cartão e papel pardo, perdido na confusão da enorme mala do carro, e com que pretendera substituir o fogareiro de ferro forjado que sempre, desde que ela fora menina pequenina, dissera a avó e repetira vezes sem conta, mas sempre, desde que ela se conhecera e soubera, sempre servira para assar as sardinhas e as frangas e as febras de porco.

– “E se o fogareiro sempre serviu e sempre fez o serviço bem feito, porque diacho é que se hão-de mudar as coisas? É o fim do mundo, digo eu, e essa é que é essa… E em nome de quê…?”

Cinquenta anos passados, mais coisa menos coisa. Tal como a minha avó, protesto o fim do que me era familiar, do que me era integral, estas pequenas, por vezes insignificantes coisas que fazem as familiaridades em que se assenta, quem sabe se indelevelmente, parte da nossa identidade. Para ela, a minha velha avó, que quase tudo vira ao longo de uma vida que se espraiava já por dois séculos diferentes, o churrasco de metal vermelho, ofensivo de desconhecido e incongruência, fora apenas o início, o símbolo a que se apegara na sua recusa de tudo o que não queria, tudo o que não podia compreender nem podia parar nem mudar. Eu, em vez de um churrasco vermelho, tenho uma catrafiada de double-speak de fazer inveja a qualquer Big Brother (o original e distópico,  e não o do reality show televisivo e medíocre e estupidificante), uma língua e uma cultura completamente adulteradas e abandalhadas, autoestradas e mais autoestradas e mais autoestradas, e viadutos e circulares e “itinerários”, externos e internos, principais e secundários, e pontes e valha-nos o diabo a sete, uma linha de comboio sem carris, um metro de superfície que nunca será, um super-hiper-mega centro comercial com todas as lojas de designer e de marcas estrangeiras – “Sabes, Nina, até lá têm uma loja como aquela em que a Ana compra em Inglaterra, e outra daquela a que tu vais…” – e lojinhas que sempre haviam sido, mas que já não são mais, e nem voltarão mais algum dia a ser.

Como quem acorda de um mau sono no meio do sol de uma tarde gritante de verão, aperto na minha a mão da minha mãe.

– “Vamos, Mamã, está quase na hora, é melhor irmos andando.”

E, devagarinho, vamos. Queria poder sorrir-lhe. Em vez disso, viro a cara como que a apreciar qualquer coisa na calçada. Não quero que ela me veja nos olhos o que me vai dentro. Não vale a pena. A voz da minha avó, demasiado cansada para ser irada, chega-me de mansinho aos ouvidos da minha memória:

– “E vai e assam lá a franga, e chamam-lhe frango de charrusco, e dizem que é o progresso, e tudo o que é é franga assada na brasa…”

Pergunto-me que nome lhe darão mesmo, nos tempos que correm, ou que justificação. Nessa noite, ao telefone, ralho desconsolada com o meu pobre e inocente marido: “E tu, estás a ouvir, tu nunca mais me digas que it’s inevitable dear, ouviste, porque eu não quero saber mesmo. Inevitável é uma merda e é assim como uma morte. Estás a ouvir? É assim como assar galinha na brasa, chamar-lhe outra coisa, e depois desculpar-se que é o progresso. E eu sinto-me assim como se fosse a minha Avó Marquinhas e agora até sei porque é que ela sempre se recusou a chamar-lhe churrasco, mas na realidade sou mesmo é a Alice, mas em vez da Wonderland estou no Room 101 e é como que na China, of all places, e já não há poção que me valha…” Ele não compreende, claro, e eu, no meio do silêncio dele, calo-me desalentada, desconjugada. É que, tal como a realidade circundante, já nem eu mesma faço muito sentido.

[Coimbra, 28 de Setembro de 2013, o coração a partir-se-me aos pedacinhos, lentamente, inexoravelmente, pelas ruas estreitas da Baixa]

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


ilustração: “Alice and Rabbit”, por Holly Clifton Brown

 
 
 

lembrança

 
 


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Umas escadas de grisalha pedra,
teatro eleito da criançada
e palco de muita risada
e infindas brincadeiras:
degraus largos alinhados
e em cada um sua escolta
de livré de terracota e envolta
em musgo cansado e velho –
neles florescem inebriadas sardinheiras
desgrenhadas de cor e sol
a cada rol de primavera.

Um alpendre
onde uma glicínia airosa
e ancestral se enlaça amorosa
pelos corrimões e balustrada.
Ao lado passa a estrada,
mas na estrada não passa nada
nem ninguém –
a não ser um calor cego de quase verão
e um ou outro zangão
vestido do mesmo veludo negro
que as velhas, ou as noites sem lua cheia;

e por vezes passa uma brisa meia
que se alisa pelo vale, envergonhada
e decídua e incapaz.

Três velhos. Uma rapariguita
de tez trigueira e escura trança
que ri e salta e dança
e canta e declama e rodopia,
embrulhada em velhas colchas
de poída e traçada fazenda
e em cortinados de renda –
e que assim lhes enche o coração
e lhes troca a paz dos lentos dias
por cansaços e alegrias
e sorrisos de emoção.

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


 
 
 

por esses infindos fins daquelas tarde

 
 


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Anda no ar
por esses infindos fins de tarde
uma eternidade de tudo e nada –
é como um estertor de aves
em poiso súbito pelos beirais,
ou os gritos alados da criançada:

perde-se
pelos baloiços de cordas de sisal
e pelos ramos das árvores
pelos muros e pelos cômoros desabitados
e pelas pias de pedra onde repousam
águas de matar sede a animais;

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encontra-se
no grito de um milhafre
ou no som distante e abafado
do chocalho de uma ovelha;

pelo cansado queixume e os ais
de uma velha sentada à porta da rua;
pelo fantasma da lua
redonda e tão nua
no azul rarefeito e transparente;

numa brisa que mal se sente
na mão, ou no murmúrio da folhagem;

pelo gorgolejar da água que se despenha
de encontro à madeira da selha,
e pelo repicado do grão
ao escapar-se da mão aberta
para o chão da terra certa
e farta.
E corria sempre e gritava a criançada,
como benção perene dos céus de prata.
Era coisa linda se se ver.

Porque eram assim os silêncios
que corriam pelos montes fora
por esses infindos fins daquelas tardes –
plenos
e cheios do ouro das coisas amenas
que voltam sem demora a renascer
todos os dias à mesma hora:

feitos dos ecos da luz dos dias
e de todas essas tão pequenas
e indispensáveis eternidades.

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


image credit: happy children running on meadow, stock image found at www.dreamstime.com via Twitter
 
 
 

primavera

 
 


red tail bumblebee B-lapidarius

Anda no ar um zumbido
maior, feito de veludo
e do profundo negro
das noites sem luar –

e até o próprio ar
vestido a luz e coroas de arco-íris
irradia cor e canto e alegria.

Corre uma brisa pequena e acesa
rodopiando remoinhos
pelas pedras da calçada –

esconde inéditos tesouros
pelos escaninhos de muro
que são casa aos besouros,
e faz os pinheiros no monte cantar
etéreas canções de sereia
com saudades da areia
e do mar.

Grita uma gralha algures
e ouve-se um correr de água
pautada e cristalina e segura
pelo barroco fundo e duro
aos pés da encosta.

Por toda a parte
há um perfume doce de flores
que explodem diurnas em todas as cores.

É pequeno o mundo
da menina, e o dia
é menino e puro e sem mágoa
nem dores.

 


image credt: bigdiversitycount.org.uk
 
 
 

fim do dia, no café

esplanada night-cafe Paris

Queixa-se ele
da incapaz indiferença
dos dias, feitos de vendavais
e de borrascas várias e do fastio
de horas vagas
e vazias

e amargas

a correrem inexoráveis
como as águas do rio
se precipitam
para um qualquer mar.
Queria estar noutro lado,
diz-lhe, um qualquer e outro lugar,
porque tem que haver mais
do que só isto
desespero destino e fado.
Precisava de romper,
partir,
e só vejo o tempo a fugir.
Vens comigo?
Porque afinal querer
não é pecado,
nem o é sonhar.
Não achas?

Senta-se ela,
o olhar vago
de fastio
e vazio
e amargo
e distante,
ausente indiferente
entre a ponta do sapato
de tiras de nome e sobrenome
empoleirado na ponta do pé
pequeno de alabastro e cerejas,
e as pontas das unhas
das mãos esguias
e frias e
polidas de um vermelho
sangrante.
O quê?, pergunta-lhe.
E ele responde,
finalmente derrotado:

Nada.

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


 
 
 

Eco

 
 


L' Umanitá contro el male, Gaetano Cellini 1908 photo by Massimo Cuomo @ flickr

De onde vêm as palavras
e para onde vão?
Por que esquinas se roçam,
por que caminhos se perdem?
Por onde se quedam
e por onde se rendem,
por onde se prendem
e por onde se acham
escravas
incólumes
vergastas
impunes,
trevas
pirilampos
cardumes
núvens
céu?

Porque são elas portas
tais, assim, portais
e chão e pão
e enlace e navalha?
Porque calha
as palavras serem mão
e serem pedra,
eco
perfume
sortilégio
e gume,
mágoa
suspiro
risada
e perderem-se em água
e onda e nada?

E porque sempre regressam
como se fruto maduro ao ventre verde
ou como vento suão e voraz
quando já nada se pode,
mesmo quando não
se
querem
mais?

Morrerão alguma vez as palavras
como morrem os sonhos
e se fecham os lábios
e se apagam
finalmente
os dias
os olhos
os ecos
as vozes?

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


image credit: “L’Umanitá contro el male”, Gaetano Cellini (1908), photo by Massimo Cuomo found @ eccelenze-italiane.tmblr.com
 
 
 

os ecos do dia

Birthday-Cake-With-Candles-Desktop

Procuro por todo o lado
um presente para te dar –
pedaço de céu ou dom ou fado
uma núvem de prata
ou uma mão farta
de estrelas e desejos:

uma flor inesperada
aberta incerta ao olhar,
um braço e abraço de mar,
uma breve melodia
acorde nosso ou sintonia –
um raio de sol,
um pote de mel?
O que é que eu te posso dar?

Um pedacinho alado de mim
um querer-me noutro lado
uma lágrima de arlequim
e de distância e ausência?
Que te hei-de eu hoje dar?

Vou pelos cantos e recantos
da casa toda e procuro
pelos armários da louça
e pelas prateleiras dos livros,
por detrás das portas
e debaixo das camas:

encontro apenas a chávena
que sempre te dou para o chá,
aquele livro que me deste
e o roupão que te emprestei.
os chinelos que cá deixaste,
disseste,
para a próxima vez.
Em tudo encontro memória
e poeira e mais saudade
e nada.

E procuro então por esse vazio aceso
esse querer que cresce viçoso
pelo canteiro aberto do meu peito –
e nada encontro ao teu jeito;

procuro um pouco mais
pelos meus cantos todos,
esses lodos da memória
que trago por companheira
constante e persistente
– e nada encontro que queira
para te dar de presente.

Que te hei-de eu pois dar
que hoje te ponha o sol no olhar
e riso no coração? Dou-te
os cuidados e os carinhos
e um gargalhar de criança;
e dou-te dos dias a cor,
o perfume e a dança.

E dou-te saudades, tantas
saudades imensas e aos molhos.
E aos molhos dou-te beijinhos,
que te solto como pirilampos
da concha breve da mão.

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND