A Sabedoria da Avó

 
 


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Mandava-a a Tia às compras à tasca do senhor Américo, as moedas e um papelito escrevinhado embrulhados cuidadosamente num lencito de assoar desbotado, as pontas atadas em cruz. Era como que um ritual. Lista, moedas, lenço, pontas atadas, advertência.

– “Pega. Dás-lhe o papel, pedes que assente lá o preço de cada coisa e quanto tens a pagar, dás-lhe o dinheiro quando ele te der o embrulho, conferes o troco e embrulhas tudo no lenço outra vez, mas à frente dele, ouviste? Ouve bem, à frente dele, que é para ele ver bem. Tomaste assento no que te digo?”

Ela sabia melhor do que perguntar porquê outra vez. Parecia-lhe tudo trabalho desnecessário. Ninguém mais fazia as coisas assim; chegavam, davam as boas tardes ou as boas noites, pediam, pagavam, metiam os trocos aos bolsos e saíam de embrulhos debaixo do braço ou com o vinho ou o petróleo das candeias ou dos motores de rega a balançar dos dedos. Da primeira vez que perguntara não ficara esclarecida, e não seria por perguntar mais vezes que a história mudaria e lhe diriam fosse o que fosse.

– “E aqui está o ‘jerican’ para o petróleo. Cuidado não chegues à roupa ou à pele, porque depois não há quem tire o cheiro. À frente dele, não te esqueças.

– “Ó Tia, mas porque é que tem que ser assim? Porque é que não posso levar o porta-moedas, como nos dias de feira?”

– “Porque não. Porque é melhor assim como te digo. Acredita. Anda lá. Vai.” – Mas em vez disso ela demorara-se a ouvir o resto da conversa, encostada ao joelho da avó que a fazia contar e recontar dinheiro, para ter a certeza que ela não se enganaria.

– “Ó Zita, mas tu achas mesmo que ele ia enganar a pequena?”

– “A pequena exactamente é que eu acho que ele há-de enganar, e com a maior das desfaçatezes! Bicho ranhoso como aquele, oh, oh, isso é que sim. Aquilo é rês que não faz ideia do que é ser honesto, nunca fez e não há-de ser agora depois de velho que há-de aprender.”

– “Apre, Zita, que ninguém guarda um ressentimento como tu! Esquece, mulher, esquece! Já vai sendo tempo.”

– “Esquecer é bom para quem tem como. Aquele canalha…”

– “E então tu achas que é por fazeres a menina atar tudo no lenço bem à vista dele que ele vai deixar de ser ladrão? Tu às vezes parece que nem pensas. Dez gramas aqui, vinte ali, meio decilitro no petróleo ou no vinho, e quem dá por ela, ou lhe dirá seja o que for? E se disserem, para a próxima fará ainda pior. Ora, tem juízo, Zita! Nem parece coisa tua!”

A Avó dessa vez não se metera na conversa. Sentada na sua cadeira de canto da mesa, abraçara-a de um braço só em torno da sua cinturinha de menina, aconchegara-a de encontro aos joelhos ossudos, e continuara a fazê-la contar as moedas.

– “Anda lá, vamos, agora dá-me o troco de 2 e 83 centavos para 5 mil reis.”

E ela dera. Dois e oitenta e três, dois e oitenta e cinco, dois e noventa, três, quatro, cinco escudos. E a conversa continuara na cozinha, o Tio e a Tia às voltas sempre da mesma coisa. Fosse lá o que fosse que o senhor Américo tinha feito, seria coisa grossa, ou a tia decerto não se teria zangado assim. É que era preciso muito para fazer a Tia zangar-se… Até que a Avó tinha posto cobr à conversa e à questão.

– “Ó Mana, deixa-te lá disso. A remexer no esterco velho como se fosse coisa nova. Deixa lá ficar isso tudo no passado, que é onde fica melhor. Aconteceu, pronto, o que está feito está feito e não há volta a dar-lhe, por mais que tu continues ressaibiada com o homem.”

Todos se haviam calado. O Tio, sentado como sempre no seu cadeirão ao lado da fogueira, remexera um pouco mais as brasas com um pauzito e tossicara para o lenço enrolado na mão. A Tia acabara de escrever a lista das compras, e começara a atar tudo no lenço.

– “A menina está pronta, não se enganou num único troco. Ouviste, São?”

– “Ouvi, ouvi. Anda, anda cá. Pega.”

Ela pegara na trouxita de lenço que a Tia lhe estendera, e dirigira-se lentamente para a porta. Ao passar perto do cantito onde se sentava a Avó, ela agarrara-a de novo pela cintura e aconchegara-lhe as pontas rebeldes de cabelo por entre as madeixas da trança meia desfeita. Agarrara-lhe então a mãozita repleta de lenço atado entre as suas e, deitando um olhar breve à irmã especada de braços caídos no meio da cozinha, dissera-lhe com um ar de implacável finalidade:

– “Lembra-te sempre disto, que te fará bom proveito: só acaba enganado quem julga que não se engana nunca.”

Devagarinho, a avó metera o molhito atado do lenço dentro do porta-moedas novo e fechara as orelhitas com um clique metálico. Entregara-lho de volta em mão com um sorriso e um piscar de olhos.

– “E agora vai, anda. Corre.” – Acrescentara. E ela fora.

 


© Nina Light CC-BY-NC-ND
 
 
 

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