Os cactos das janelas


 
 


– “As janelas são os olhos de uma casa.” – Dizia-lhe a tia, convicta, peremptória, de um peremptório estranhamente feito de doçura e graça pelo meio das palavras esparsas. Ela olhava a velha mulher, esguia e adunca como haste de milho painço curvado ao vento de verão, e perguntava-se como tudo podia ter um ar tão final, tão decisivo, e ser assim tão brando e fácil, como se de barro maleável ou massa de pão. Era esse o dom da tia: falar a maior autoridade com a maior brandura e gentileza. – “Têm que parecer sempre bonitas, bem apresentadas, todas arranjadas…”

Falava, e de seguida perdia-se na tarefa em mão, e naquele cantarolar baixinho e permanente de canções que nunca seriam nem nunca haviam sido, intercalado daqueles surtos de assobios tentativos, assobios que eram assim como os úúús do vento a assoprar pelos intervalos da telha vã. Ambos, cantarolar e assobios, que tanto irritavam o tio. E a avó, quando calhava, e as duas se pegavam de palavras.

A bem pensar, que tanto irritavam toda a gente, até mesmo o pai. Sobretudo o pai. A mãe não dizia nunca nada. As primas, essas, achavam que era uma boa maneira de saber por onde a tia andava, para não terem surpresas e não serem apanhadas no que quer que fosse que haviam engendrado para esse dia. E ela, ela não achava nada. Ouvir o que a tia deixava assim atrás de si ao vento, por onde ia, por onde andava, enquanto fazia as coisas que fazia, era como que um abraço constante, um lastro benvindo do que é reconhecido, familiar, de conforto e segurança. E para além do mais até achava engraçado que quem lhe tentava ensinar que assobiar não era coisa própria de uma menina, assim se perdesse sem se dar conta em débeis e desajeitados assobios.

– “Tia, ‘tá a assobiar!” – Lembrava-lhe ela então de risinho maroto em punho.

– “Não, não estou, que isto não é assobiar. Que eu nunca aprendi a assobiar. Ando é cá nas minhas cantarolices, que é para não andar sózinha.”

Mas assobiava, e ela bem o sabia. Embrenhada nas horas e nos dias quase iguais de manhã à noite e uns aos outros, dias em que gestos e palavras se repetiam como se fossem liturgia inescapável, a tia cantarolava baixinho e assobiava.

– “Mas a tia não está sózinha, porque eu estou aqui consigo…”

– “Pois estás! E não é que me tinha esquecido de ti? Estás tão caladinha como um ratito de despensa…” – E passava-lhe a mão pela trança. – “Não andas a preparar nenhuma, pois não?”

Ela sentia-lhe o sorriso ainda mesmo antes de o ver. E a velha então curvava-se até ela e plantava-lhe um beijo breve e fugidio no cimo da cabeça.

A tarefa do momento eram as janelas da sala de jantar de cima. Aquelas que tinham floreiras de cimento que o Sr. António tinha habilmente adicionado do lado de fora. Pareciam suspensas das paredes como que por feitiço ou milagre. Quando as olhava da rua, bem debaixo delas de pé na quelha das águas, mesmo rentinha às paredes das lojas, sempre se perguntava porque não caíriam.

Do lado de dentro, por mais que tentasse os olhos mal lhe chegavam ao parapeito da janela. Empoleirava-se nos biquitos redondos dos pés pequenitos, e mesmo assim não conseguia ver. Os dedos em garra aferroados ao rebordo da madeira, procurava o cimo dos rodapés para mais altura – mas mesmo assim não chegava.

– “Tia, posso ir buscar o banquito…?” – Também isso era um ritual.

– “Para que queres tu o banco? Ainda cais…”

– “Não caio não. É para ver as plantinhas da Tia… São tão estranhas…”

E a tia sorria e lá ia buscar ela o banco, e punha-lho no vão imenso da parede onde ela o pudesse trepar em segurança, e nele se ajoelhar para poder ver o conteúdo das floreiras. Lado a lado, ambas inspeccionavam as pobres coitadas.

– “Que planta é esta, Tia?” – Era uma coisa assim como um alfobre descontrolado de bolinhas atarracadas e cobertas de finos espinhos que mais pareciam lã.

– “São cactos.” – dizia-lhe a tia. – “Plantas das zonas desertas.”

– “Mas aqui não é um deserto!” – Declarara ela ufana e confidente: isso tanto ela sabia, porque sabia o que era um deserto.

– “Pois não. Mas as plantas dão-se bem aqui, e para mais dão jeito.”

– “Porquê?”

– “Porque não precisam de muita rega, e para mais apanham água da chuva que baste da que cai das telhas, e assim dão pouco trabalho e nunca morrem. Dá para termos sempre plantas nas janelas.”

– “E dão flores? Gostava de ver…”

– “Olha, este aqui dá. Umas flores amarelas. Este não. As daquele são cor de rosa e miúdas, não têm vista nenhuma. Quando fôr o tempo delas florirem, logo te mostro.”

– “E que planta é esta aqui?”

– “Ah, essa é uma carnuda. São plantas das montanhas. Dão-se bem com os cactos.”

Demorava-se ela um pouco mais pelo banco, a olhar tão díspar colecção. Plantas do deserto, com plantas da montanha. Que até ela sabia que desertos e montanhas nem viviam lado a lado, nem tinham nada a ver um com o outro. E se umas eram plantas do deserto e as outras plantas das montanhas, quereria isso decerto dizer que cada uma se dava no seu lugar, onde quer que fosse, e que nem as da montanha andavam pelo deserto, nem as do deserto brotavam raízes nas montanhas. Seria assim como a fauna e a flora nos cromos que o tio coleccionava para ela – foram essas as palavras que o tio lhe havia ensinado para querer dizer animais e plantas. Cada sítio tinha a sua fauna e a sua flora própria, dissera-lhe o tio, e mostrara-lhe os cromos e as ilustrações daquelas revistas de capas amarelas de que ela tanto gostava. Tal como tinham gentes diferentes, ele também já lhe tinha ensinado isso. E contudo… Dão-se bem com os cactos, dissera a tia, e de repente ela começara a rir à gargalhada. A ideia de que as plantas pudessem despalavrar, discutir, guerrear como as pessoas! Como andavam à guerra lá naquele sítio, que fazia os homens e os rapazes desaparecerem. Era impossível, e as floreiras da tia bem o provavam: plantas das montanhas e plantas dos desertos, felizes lado a lado, contentes com as águas do telhado e uma frente de janela…

– “Oh, que te deu…?! De que te ris assim?”

– “Ó Tia, da ideia que as plantas pudessem começar a andar à guerra umas com as outras nas janelas…” – E a tia tinha-a puxado para ela, o braço ossudo e forte em torno da cintura dela. E ela, como hera que se abraça a uma casa, tinha-se-lhe entrelaçado ao torso curvado e seco de carnes, num abraço como se todos os abraços pudessem acabar nessa tarde e já não voltar nunca mais a haver. Eram assim os abraços naqueles tempos. Todos eles. E tinham então ambas rido, como se o riso fosse ar que se respirasse.

 
 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


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2 comentários a “Os cactos das janelas

  1. Uma história deslumbrante de plantas longínquas que vivem em harmonia e de abraços construídos pelo diálogo e a cumplicidade. Gostei muito, adoro a forma como a Nina escreve, com arte e muita alma.

    • Obrigada. Eu gosto de escrever, sempre gostei, mas levei tempo a ter a coragem suficiente para pôr os meus escritos fora das gavetas… São muito pessoais, a maioria deles, ancorados em pedacinhos de passado, o que não ajuda nada.

      ‘Feedback’ como o que acabou de me dar, acredite, é precioso. Por isso, duas vezes obrigada. (E leu o poema do Mark Strand…? Outro dos meus favoritos… depois diga-me se gostou.)

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