lembrança

 
 


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Umas escadas de grisalha pedra,
teatro eleito da criançada
e palco de muita risada
e infindas brincadeiras:
degraus largos alinhados
e em cada um sua escolta
de livré de terracota e envolta
em musgo cansado e velho –
neles florescem inebriadas sardinheiras
desgrenhadas de cor e sol
a cada rol de primavera.

Um alpendre
onde uma glicínia airosa
e ancestral se enlaça amorosa
pelos corrimões e balustrada.
Ao lado passa a estrada,
mas na estrada não passa nada
nem ninguém –
a não ser um calor cego de quase verão
e um ou outro zangão
vestido do mesmo veludo negro
que as velhas, ou as noites sem lua cheia;

e por vezes passa uma brisa meia
que se alisa pelo vale, envergonhada
e decídua e incapaz.

Três velhos. Uma rapariguita
de tez trigueira e escura trança
que ri e salta e dança
e canta e declama e rodopia,
embrulhada em velhas colchas
de poída e traçada fazenda
e em cortinados de renda –
e que assim lhes enche o coração
e lhes troca a paz dos lentos dias
por cansaços e alegrias
e sorrisos de emoção.

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


 
 
 

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