os ecos do dia

Birthday-Cake-With-Candles-Desktop

Procuro por todo o lado
um presente para te dar –
pedaço de céu ou dom ou fado
uma núvem de prata
ou uma mão farta
de estrelas e desejos:

uma flor inesperada
aberta incerta ao olhar,
um braço e abraço de mar,
uma breve melodia
acorde nosso ou sintonia –
um raio de sol,
um pote de mel?
O que é que eu te posso dar?

Um pedacinho alado de mim
um querer-me noutro lado
uma lágrima de arlequim
e de distância e ausência?
Que te hei-de eu hoje dar?

Vou pelos cantos e recantos
da casa toda e procuro
pelos armários da louça
e pelas prateleiras dos livros,
por detrás das portas
e debaixo das camas:

encontro apenas a chávena
que sempre te dou para o chá,
aquele livro que me deste
e o roupão que te emprestei.
os chinelos que cá deixaste,
disseste,
para a próxima vez.
Em tudo encontro memória
e poeira e mais saudade
e nada.

E procuro então por esse vazio aceso
esse querer que cresce viçoso
pelo canteiro aberto do meu peito –
e nada encontro ao teu jeito;

procuro um pouco mais
pelos meus cantos todos,
esses lodos da memória
que trago por companheira
constante e persistente
– e nada encontro que queira
para te dar de presente.

Que te hei-de eu pois dar
que hoje te ponha o sol no olhar
e riso no coração? Dou-te
os cuidados e os carinhos
e um gargalhar de criança;
e dou-te dos dias a cor,
o perfume e a dança.

E dou-te saudades, tantas
saudades imensas e aos molhos.
E aos molhos dou-te beijinhos,
que te solto como pirilampos
da concha breve da mão.

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


 
 
 

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