como fantasmas na noite

 
 


fox-Roeselien-Raimond-

Uma luminosidade estranha entra pelas janelas do quarto e acorda as sombras escondidas pelas paredes. Acorda por fim, e no mesmo momento em que abre os olhos reconhece aquela pastosidade inescapável. Não há outra luz como aquela. Levanta a cortina para espreitar, mas sabe precisamente o que vai encontrar do lado de fora. E lá estão eles, vê-os mesmo antes de acabar de levantar a musselina: flocos de neve que caiem impiedosos e inexoráveis, enormes, moles e pastosos e pesados, como se fossem colheradas de leite mal congelado, e se empilham uns nos outros e em cima das coisas, o jardim, os muros, os peitoris das janelas, os telhados, a rua, as árvores e arbustos, recobrindo tudo de um manto branco de água e luar.

O vento traz tudo num rodopio. Tudo menos a neve, demasiado pesada para entrar na dança. Demora-se um pouco a obervar as árvores, como elas se vergam impossivelmente em quase duas, e resistem estóicas pelas bermas daquela estrada que intersecta os campos de norte a sul, como serpente solitária e sonolenta, abandonada áquela hora da madrugada. Os ramos do sabugueiro e da macieira brava atiram-se de encontro à fachada da casa, como que pedindo o perdão de um abrigo que nada lhes poderá dar.

E é então que repara nos pequenos vultos que começam a descer a rua, como que pé ante pé, devagarinho, temerosamente. É só uma de início, mas logo mais a seguem. São cinco ao todo. Macho, fêmea, duas crias jovens, provavelmente uma das filhas do ano anterior. Iluminam-se-lhe os olhos e os lábios num sorriso imenso. São lindas, lindas, tão lindas…

Quando finalmente regressa de máquina em punho, as raposas já não estão em lado nenhum, e a neve começara já a apagar-lhes as pégadas. E então ela sorri para o vidro e o vazio da rua. Pela manhã que já se aproxima a passos largos, ninguém fará a mais pequena ideia: será como se elas nunca tivessem vindo, como se nunca por lá tivessem passado, pequeninos e hesitantes fantasmas perdidos na noite. E é então que se lembra serem estas coisas assim, segredos órfãos e solitários e que ninguém mais quereria se um dia os encontrasse, as coisas a que sempre chamou suas.

© Nina Light CC-BY-NC-ND


foto: red fox in the snow, Roesalien Raimond @ www.roesalienraimond.com
 
 
 

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4 comentários a “como fantasmas na noite

  1. em primeiro lugar, este pequeno texto faz-me lembrar a minha infância passada nos alpes. de seguida, acho-o exemplo da importânica do “momento”. pequenos pormenores que duram uma fracção de segundos e que muitas vezes temos dificuldades em apreendê-los, mas que no fundo radiam sensações agradáveis captadas pela alma.

    • e que perduram, duram, duram…? ::smile::
      e depois, há aquele sentimento de cumplicidade (sempre) entre mim e a noite do outro lado da minha janela – e nenhuma de nós conta os segredos da outra.

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