As Coisas Erradas

 
 


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O último dos aprendizes do padeiro tinha finalmente chegado, e tinha empilhado a bicicleta em cima das de todos os outros, como sempre fazia, e como sempre havia tombado aos tropeços e tropelões pela porta da padaria dentro, uma palmada certeira do padeiro na nuca desatentada, e havia-se escapulido antes que a mão estendida o agarrasse pela orelha. Era sempre o mesmo rapaz a chegar atrasado, todas as noites, e a ser presenteado de palmada na nuca e ralhos aos berros e puxões de orelhas, por uma qualquer asneira ou outra, várias vezes à noite. O Armindo devia ser o rapaz mais desajeitado e azarento da aldeia inteira – que não era possível que houvesse mais algum assim tão propenso a fazer sempre tudo errado. Que ela às vezes perguntava-se, se ele não conseguia aprender a fazer pão, porque não iria aprender a fazer outra coisa qualquer?

Um dia perguntara à tia, e ela perguntara-lhe o quê: o que achava ela que o rapaz poderia ir fazer, ou aprender. Ela não soubera. Pensara por um momento e então dissera: porque é que não ia trabalhar para a mercearia do senhor Videira? Ele também tinha sempre rapazes a trabalharem na loja. São os filhos dele, dissera-lhe a tia, que é para não ter de lhes pagar jornas. Podia ir trabalhar para a farmácia, ou para os correios, dissera ela então. Ou para o talho do senhor Libânio. Bom, dissera a tia, para o correio o rapaz tem de ter estudos, e ele não acabou sequer a escola, e o mesmo para a farmácia. E o Libânio também só tem os filhos a trabalhar para ele.

– Então porque é que o senhor Manuel tem aqueles aprendizes todos em vez dos filhos dele a trabalharem na padaria?

– O Sr. Manuel não tem filhos, porque se os tivesse havia de os ter a trabalhar para ele na padaria, como os outros. É por isso que tem aprendizes, enquanto o Sr. VIdeira e o Sr. Libânio têm os filhos como aprendizes.

Ela detivera-se um pouco, e depois perguntara:  É sempre assim, Tia? Assim como, perfuntara-lhe a tia. Assim, os filhos a trabalharem para os pais? E o papá, para quem trabalha? Também trabalha para o pai dele? A tia sorrira, e aconchegara-lhe por detrás da orelha as madeixas que se haviam desprendido das tranças.

– O teu pai não teve pai para quem trabalhar, que o teu avô morreu era o teu pai mais novo que tu. – Respondera-lhe então. – E é assim aqui. É o que há por cá pela aldeia. Não há para mais. E ao rapaz só resta a lavoura, tal como o pai e os irmãos, e é isso que ele não quer…

– E eu, Tia, também vou ter de ir aprender uma profissão e levar puxões de orelhas e palmadas na cabeça como o Armindo da padaria?

– Se estudares e fores boa menina, aprendes uma profissão na escola, e depois quando fores grande o mundo é todo teu.  – Respondera-lhe a tia com um sorriso.

– Porque é que ele não estuda, então?

– Nem todos têm cabeça para o estudo, sabes, e para além disso a família não o pode ter na escola.

– Porquê?

– Porque precisam do dinheiro que ele ganha. São muitos filhos e filhas, muitas bocas a comer.

– Mas o pai e a mãe dele não trabalham, como o papá e a mamã?

– É claro que trabalham, mas não ganham o suficiente para sustentar a família toda.

– Então eles não têm de comer…?

Mas haviam chegado à porta da escola, e a tia havia-se despedido dela sem responder.

Na cidade é tudo diferente, tu vais ver.

Aprendera ela várias lições nesse dia, sem nem mesmo a tia precisar de lhas enunciar. Aprendera porque comiam as crianças da escola tão depressa e prontamente as sopas de grão de bico com gorgulho e tudo e o pão rijo e cinzento dos almoços escolares da Sopa dos Pobres da fundação. Aprendera porque se levam sopapos na nuca e puxões de orelhas e o ocasional pontapé todos os dias, dia após dia, e se continuam a levar. Aprendera, e isso fora o que mais lhe custara e mais lhe doera, que nem todos são iguais embora tenham vidas exactamente iguais e exactamente o mesmo pão, e que não só nada poderia fazer, mas que seria isso que explicaria mesmo muita coisa. Por exemplo, explicava as mãos gretadas e roxas da Isabel de tanto esfregar roupa na ribeira que a não deixavam pegar na caneta e desenhar as palavras, ou a broa seca da Maria ao pé da sua com marmelada, ou porque é que a Idália passava a vida a apanhar reguadas, ou porque é que sempre a empurravam a ela para dentro da retrete sempre que a apanhavam por perto.

E tão perplexa ficara com a coisa toda, que lhe escapara por completo o que se esconderia detrás das últimas palavras da tia. Havia-as registado, é claro, mas esse ‘tu vais ver’ parecera porventura ínfimo perante a enormidade do resto. Perdera assim a oportunidade de indagar sobre o que, afinal, seria talvez de maior monta na sua própria vida. ‘Tu vais ver’ . Não fora senão tempos passados que se lhe tornara claro: prestara atenção às coisas erradas. Prestava sempre atenção às coisas erradas, aos pormenores irrelevantes. Que se ela não prestasse sempre atenção às coisas erradas, nesse dia teria perguntado à tia o como e o quando e o quê do que ela iria ver.

 

in Memória de Estrelas e Outras Árvores © Nina Light CC-BY-NC-ND


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