luzidia canção

 
 


Moss stairs in Sardinia

Sabes,
eu sufoco nas palavras
tantas
que se atropelam à flor dos meus lábios
e tombam inertes e subjugadas
pelas bermas das estradas –

os caminhos que eu todos os dias
percorro
no teu corpo
e nas suaves alegrias
do teu mar.

Sabes,
eu sufoco com as palavras
tantas
que imagino etéreas e sublimes,
palavras aladas e ligeiras
como flor de borboleta ou luar –

uma qualquer avidez que te abra a mão
e o riso espraiado do olhar.

Sabes, eu sufoco.
Engasgam-me todas estas palavras
que não sei como te dar –

palavras que se quedam ariscas
e escorregadias
pelas caladas esquinas
do meu olhar
e pelas minhas mãos meninas
que se demoram em ti –

palavras que são
como quem espera o amanhecer
mas que nunca chegam para o tanto
tudo
que sei de ti e de te amar
do teu jeito demorado de andar
e do corado da tua face
quando te colho perdido
pelos sonhos e nas águas
do meu mar;

e, sabes, hesito.
E perco-me então.

Perco-me de um perder absoluto
e súbito,
um perder feito de estrelas
ancestral e elemental
e único.

Perco-me
por esta distância que sinto
intransponível,
este intolerável vazio
entre a palavra que te falo
e a que sinto e calo
e te não sei dar.

Perco-me, sabes,
pelas sombras escondidas
das palavras
enquanto elas se ajeitam
lentas e doridas e mal-amadas
furtivas e fugidias

pelos escaninhos da escada

pelas pedras da calçada

pelos esconsos das janelas fechadas

pelas ombreiras das portas costumeiras

pelos peitoris de floreiras alardes
apinhadas de garridas sardinheiras.

Perco-me
de um perder de horas e dias
e vagueio por entre os filamentos
incapazes
de uma qualquer realidade
voraz, um desvario
sempre tão maior do que eu –

que eu queria as palavras capazes
e fluídas e recorrentes
como as águas de um qualquer rio
ou como os quietos e breves instantes
pintados a vermelho e lilás
que chegam pela madrugada
mesmo antes do amanhecer –

palavras
que eu tanto queria luminosas e leves e belas,
e raras como pequenas flores amarelas
perdidas em seara de rosas
e papoilas breves;

palavras
que te sussurrassem  o saber
desta doce enormidade do teu ser
assim perdido em mim.

E então sonho, sabes,
e a palavra qualquer irrompe
incandescente e pura
do meu consentido incêndio,
e lavra pelo incontido silêncio
do meu permanente
desassossego –

estendo-ta
nesse preciso momento
em que o teu corpo se abre no meu
nesse instante desatento de sal e suor,
como quem oferece uma flor
fremente,
ou solta um incerto pirilampo
medroso e demente de toque e olhar
da concha aberta da mão:

e é entåo que a simples palavra é nó-cego
e terno e eterno enlace
e luzidia canção.

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


fotografia: Escadas com musgo, Sardinia
 
 
 

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1 comentário a “luzidia canção

  1. Uau! Como é bela esta tua luzidia canção! Que tela tão maravilhosa que tu pintaste com as tuas palavras! Adorei perder-me nela e sentir-me cúmplice das tuas emoções, que passaram a ser as minhas também. Obrigada pela partilha que me arrepiou… 😀

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