o tempo dos peixes-ícaros

peixe-ícaro

viviam-se tempos estranhos.

tinha começado tudo pelos pássaros. primeiro tinha sido um ou outro aqui ou ali, e ninguém tinha prestado muita atenção.  que afinal seriam mesmo só pássaros.  a bem dizer, tudo tinha começado mesmo fora pelos pardais e pelos estorninhos, todos os dias ao entardecer. prendiam-se de fascínio pelo espelho de uma qualquer água breve, e quedavam-se imóveis no reflexo, incautos Adónises inevitáveis.  ficavam assim muito tempo e nada nem ninguém os acordava de tão estranho torpor:  nem mesmo os gatos, que se quedavam também imóveis de estupefacção, e nem pensavam em os caçar.

depois, de repente, os pássaros haviam mergulhado no espelhado da água e desaparecido. murmurações inteiras, do dia para a noite tornadas cardumes de sombra e nada.  uma a uma, assim se haviam ido todas as espécies de pássaros e aves – restara deles apenas um breve e confuso pensamento.  e restara também o súbito e inabarcável silêncio da água, ainda antes de as águas terem perdido o reflexo, ainda antes de terem secado.  e os homens não se aperceberam que, secas as águas dos espelhos circunstanciais, nunca mais os pássaros poderiam voltar.

passado um tempo sobre o tempo dos pássaros, fora a vez das ovelhas. haviam-se prendido de um voo súbito, inexplicável de tão incontornável, e finalmente rendido em corrente pelos fios da electricidade. uma a uma a uma e a eito. erguiam-se pelo ar à deriva como balõezinhos fofos e felpudos, confluiam em rebanhos aéreos e então apagavam-se, subitamente, sem nem mesmo o mais ligeiro fulgor, deixando os chocalhos pendurados nos fios.

seguiram-nas as vacas, presas pela curiosidade dos fundos dos poços, onde mergulhavam de voo picado de kamikases em busca de uma qualquer e pontual ilusão. e a seguir às vacas tinham ido os outros todos: os burros, os cavalos, as cabras, os coelhos, os porcos, todos. não sobrou ovino, bovino ou equino, porcino ou outro, nada, para fazer e contar história.

tinham restado os gatos.  assim como tinham restado os cães, e as ratazanas e os ratos. mas na altura, inexplicavelmente,  os homens disso não se tinham dado nem conta nem significância.  e tinham restado os insectos e os batráquios, mas dos insectos e dos batráquios o homem pouco se dera alguma vez conta.

e tinham é claro restado os homens, para contarem as histórias de como as aves e as ovelhas e as vacas se tinham ido, de como os cavalos haviam um dia galopado pela terra dentro como se o solo nada mais fosse que nuvem de poeira, de como os burros se haviam fundido gradualmente pelas paredes de pedra, de como os coelhos se haviam sentado na erva com os olhos fechados e desvanecido em fumo, de como as cabras haviam saltado das árvores e desaparecido no meio do ar, de como os porcos pareciam ter mergulhado no aparente sem fundo dos comedouros.

tudo o que se passou nesses tempos passaria eventualmente à história e à memória, e ao folclore dos homens.  um dia, quiçá, se os homens no fim restassem, tudo se tornaria finalmente em lendas e as lendas se tornariam em parábolas e as parábolas nasceriam finalmente em religiões. que assim são sempre as coisas.  mas ainda não, ainda era cedo.  e por isso assim se haviam ficado as coisas pelo momento, de resto como sempre, pelas imcompletas narrativas dos homens, feitas da indecifrável e insuportável ligeireza do parece e do consta.  e assim é, e assim consta.

consta que os tempos das ovelhas tinham sido também o tempo em que todas as lâmpadas e luzes haviam começado a explodir, uma a uma, até que mais nenhuma restou.  a partir dessa altura, não haviam os homens tido outra escolha senão usarem a luz dos dias e renderem-se à noite e à escuridão.  mais ou menos pela mesma altura em que os cavalos tinham começado a partir, os fios da electricidade começaram a incandescer espontaneamente e a consumirem-se, como se fossem vagarosos rastilhos para quaisquer ausentes explosivos.  e assim, com as linhas idas, nunca as ovelhas poderiam ter voltado.  uma a uma, todas as amarras se haviam cortado, todas as portas se haviam fechado.  e o homem nada sabia. de nada se dava conta.

do que os homens não se poderiam nunca ter dado conta, porque para além do mais tais causalidades estariam por essa altura já fora do seu alcance, é que todas as coisas que aconteciam então aconteciam por uma qualquer razão.  e assim, o facto em retrospectiva inescapável de que fora o desaparecimento das lâmpadas e das linhas da electricidade que abrira a porta para a chegada dos tubarões, tinha-lhes por completo escapado. tal como tudo parecia escapar.

consta também que fora então que as águas outras que não mar ou rio tinham começado a desaparecer, como se viessem ladrões roubá-las pela calada das horas adormecidas:  poças da chuva, fontes, os tanques dos jardins, os bebedouros dos pássaros e dos outros.

e consta ainda que um dia amanhecera inesperadamente repleto de cardumes de sardinhas e cavalas e outos peixes, placidamente lavrando o ar e os céus.  haviam-se quedado os homens atónitos, mas haviam-se eventualmente rendido à lógica de que se os pássaros se haviam tornado água, seria enfim decente que os peixes se tornassem do ar.  e não haviam ligado, como não haviam ligado ao facto de os peixes partilharem, em total harmonia e deleite, os ares com as borboletas

mas parece que onde tudo teria começado mesmo mesmo, ainda muito antes dos pássaros, teria sido pelos voos exploratórios dos peixes-ícaros – que assim lhes haviam chamado nos mares do Japão, por terem asas para voar e a tentação do ar, e se erguerem do mar em jeitos de uma qualquer procura insana do sol.  a princípio tinham sido só uns quantos, e tinham-se quedado por voos sobre as águas do mar.  mas logo tinham sido cardumes inteiros, como se em corridas olímpicas.  depois, quem sabe cansados de espelho, os peixes-ícaros tinham-se aventado à terra, e os homens haviam-se interrogado se seriam verdades as velhas lendas, e se afinal eles viriam dormir a terra firme enquanto as sereias se embalavam no mar.

diz-se que ao princípio os homens tinham achado graça àquela curiosidade de peixes assim voarem, ao desafio uns com os outros e como que em corridas desatadas com os barcos dos homens – e que só mais tarde se tinham interrogado se os peixes não teriam sido afinal escuteiros em missåo de reconhecimento.  ou mesmo guarda avançada.  que contavam os homens com invasões do espaço enquanto se invadiam a si mesmos e a tudo ao seu redor, e nunc a por nunca se haviam lembrado que as coisas se poderim assim trocar.

diz-se muita coisa, desses tempos.

 

in trilogia de seis:
i. o tempo dos peixes-ícaros

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


imagem: http://en.wikipedia.org/wiki/Flying_fish
 
 
 

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