é naquele canto, ali

 
 


gato do vizinho com lilaz 2

é naquele canto ali, aquele à minha esquerda, naquele canto dos lilases, ali por detrás da macieira brava, no canto da placa da garagem que está recoberto de espesso e fofo musgo, que se tomam banhos de sol e se realizam as diárias confabulações dos felinos. é naquele canto ali, promontório estratégico, torre de vigia, posto avançado, canto preferido e cobiçado, que se realizam as jogadas mais cruciais no permanente jogo de hauiss que é a vida dos felinos das redondezas: quem tem o canto, tem o xeque mate. é daquele canto ali que os gatos fazem namoro às gatas, e as gatas se lambem ao sol e vigiam os melros.

que os melros, esses, não são os inocentes da fita. passeiam-se pelo canto oposto, provocadores e prepotentes, a torturarem os gatos. levantam-se os gatos. e ainda antes que os pobres possam sacudir a quentura do sono ensolarado do pelo, os melros alam e num ápice desaparecem. reaparecem nos lilases. tão perto e tão longe dos gatos. gritam-lhes aos ouvidos, infernizam-lhe o sono das sestas. e quando o gato salta do canto para o muro e do muro para o lilás, alam os melros, o ramo verga, e o gato vai ao chão. reaparecem os melros na vedação. e os gatos quedam-se onde estão, naquele canto ali ao canto do jardim, por entre os lilases, narizes no ar a tremer com o cheiro a melro, bigodes em paroxismos de excitação, miados doridos e esfarrapados que mais parecem trinados de pássaros do que cantos de gatos. mas correr atrás dos melros, já não. tudo menos isso. porque inocentes é que esses melros não são, e estes gatos já não caiem em tais ciladas.

ia eu pelo carreiro do jardim abaixo de máquina em punho, quando lá vi o Mr Darcy. enrolado a dormir, regalado. o Mr Darcy é gato das redondezas. nem sei onde mora nem como se chama na realidade, mas sei que se convida para a minha cozinha e que namora a Flower. o movimento da orelha diz-me que me sabe pelo carreiro abaixo. os melros, esses, deslavados, quedam-se imediatamente do jogo e retiram-se para a aucuba gigante. Mr Darcy permanece impávido, vigiando o meu progresso e o que levo na mão, pelo canto do olho entreaberto. hey, Mr Darcy – falo-lhe de mansinho – queres-me ajudar a fotografar os lilases? quando chego perto, levanta-se preguiçosamente e espreguiça-se. nunca se chega muito de perto, mas nunca foge, também. eu continuo, e o gato queda-se pelo canto, curioso, seguindo cada movimento da minha mão, cada passo que dou.

e eu vou e fotografo-o também. e, fotografias tiradas, retorno ao meu canto nos degraus da porta do jardim, e quedo-me aí eu também. a ver os gatos e o jogo. o Mr. Darcy lá no musguento e ensolarado canto dos lilases, o Ruivo no pilar da vedação, os melros por todo o lado, a Zoë no murito do canteiro dos tomateiros, a Flower no assento da mota, a Nena no meio do carreiro e eu no canto do degrau. o Ruivo no canto dos lilases, a Zöe no carreiro, o Mr Darcy no telhado da arrecadação, a Flower no assento da mota, os melros por todo o lado, a Nena na floreira dos junquilhos, e eu no meu canto do degrau. a Zoë na floreira do cebolinho, os melros por todo o lado, a Nena no canteiro dos tomateiros, o Ruivo no telhado da arrumação, a Flower a dormir no assento da mota, o Mr Darcy desiludido no carreiro, e eu no canto do degrau.

é como xadrez tridimensional, e eu não percebo petisco das regras, por mais que tente. a única coisa que eu sei é o mesmo que os melros sabem, e é que aquele canto ali, no canto da garagem, por entre os lilases, é vantage point, mas que quem ganha cada partida de hauiss é quem preserva o seu próprio canto sem nunca de lá sair, e sem ter de por aquele canto passar.

e a outra coisa que só eu sei é que é naquele canto ali, cheio de sol e do perfume dos lilases, que um outro gato, faz já tanto tempo, sempre costumava passar os verões.

Junho 2012

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


 
 
 

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