musa ausente

 
 


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as palavras estão penduradas por todo o lado, escondidas por um lençol de leite e sal, um mar de nevoeiro tão denso que quase se pode provar em cada nova golfada de ar. mal as podemos ver, mal se podem pegar. palavras que são letreiros; outras são máscaras, outras véus, outras ainda lanternas, algumas mar e algumas céu.

dependuram-se de janelas e portadas, dos madeirames dos tectos e dos telhados, dos peitoris de pedra talhada, dos alpendres e das chaminés, das roseiras e das sardinheiras, da glicínia e das cameleiras, das árvores de fruto, dos pinheiros  no cimo do monte, nas empilhadas pedras da fonte, dos arcos da velha ponte de pedra. são como mulheres da vida, adornadas de enganos e meia nudez, e de pós de cor berrantes: estão em todas as esquinas. quedam-se e riem alto. irão com qualquer um, e a nenhum pertencerão.

estão por toda a parte, as palavras, como se fossem de ar e arte, como se fossem súbito respirar, efémera pausa do olhar. ubiquas, gotejam das coisas e balançam-se no ar, tão perto do pensamento, tão longe da mão. e nós, atormentados, que lhes não podemos chegar.

precisamos de um qualquer vento que as rodopiem em flores e dança. e tragam-nos as redes do apanhador de borboletas.

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


 
 
 

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