o gato

 
 


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ronronava-lhe o gato enrolado no colo roliço, grato pela generosidade macia e quente das coxas da mulher.   ela, a mulher, quedava-se lenta em frente da janela aberta aos campos e ao luar.   outros dias, outro norte.   que dantes avistara pelo entreaberto desleixado da portada uma imensidão de água e sal, e a ilusão era ainda da permanente possibilidade de partida.   de uma qualquer possível liberdade.

e assim um dia ela partira.   um dia, tomara finalmente a coragem e o freio nos dentes, como tantas vezes lhe haviam dito e ela nunca ousara.   e então partira, e noutro dia viera a quedar-se no meio de campos abertos, ponteados de árvores como o mar o fora de luzinhas e reflexos.   só trouxera consigo o gato, tão preto quase como a noite de breu que todos os dias caía sobre os campos de centeio do outro lado do vidro.   que nisso as noites de seara se distinguem das de mar: falta-lhes a profundidade do espelho e o fulgor.

trouxera consigo o gato e, descobrira então, aquele desejo infindo e impossível de mar.   suspirara.   de mansinho, para não acordar a noite.   o gato, esse, dormitava ainda entre o alerta e o sonho, de sono leve feito de ronronado profundo e de orelhas que se agitam e apontam e de uma ponta de cauda inquieta, pautados aqui e ali por um trinado absurdo e a roçar o impossível.   com que sonharia o gato, perguntava-se ela sempre que assim era.   com que sonharia o gato.

e com que sonharia ainda ela, para sempre assim se prendendo por detrás de uma janela?

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


imagem: Shozo Ozaki @ facebook
 
 
 

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