desengano

 
 


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levantei-me para a madrugada quente e cansada de tanto verão e incansável calor, para o lençol seco como os meus olhos que poisam na cama vazia, para a tua ausência pesada e surda no silêncio da noite. lembro-me

de como os minutos costumavam ser de uma imensidão quase eternidade e grávidos de tudo, de ti de mim de sorrisos de olhares do cheiro a veludo da tua pele do cetim ondulado do teu cabelo permanentemente amotinado de conversas inconstantes como chilreado de pássaro breve –

e lembro-me do cheiro a rosmaninho e de silêncios leves e dos gemidos enrouquecidos loucos de tanto querer.

Conjugo: me te mos. fomos um dia querer, e agora apenas sombra somos. nada mais seremos do que páginas amarelecidas de um livro antigo e raro, os cantos gastos e revirados e carcomidos por anos de olhos e dedos.

não haverá redenção. não mais pousarei o meu olhar na tua mão esguia, não mais seguirei o vagar do carvão na carícia da página, não mais beberei o sopro doce e cálido do teu respirar, não mais sentirei a leveza do teu olhar furtivo nas minhas costas, a fazeres de conta que me não desenhas.

não mais colherei os teus beijos roubados aos molhos, como se molhos de flores fossem. não mais.

e é então que a enormidade do saber alastra e me incendeia como moínha de fogo em restolho seco, e me sufoca. como se novidade fosse. como se eu não tivesse já aprendido de cor a cor e a dor de não mais sermos e querermos e termos. Decoro: nós os dois, nunca mais seremos unos. não mais seremos senão memória e história e poeira e passado.

(1984)

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


imagem: aguarela de Peter Pichler, fotografia de P. Light
 
 
 

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