música

 

 

 

Olha, vê como rio,
e o meu riso é rio
que corre

corre, para as águas
do teu mar:

águas casas asas ar,
o gesto sem mágoas
do teu amar.

Olha, vê como falo,
e tudo o que já não calo
é canção,

e o meu riso é refrão
que corre,

que corre e escorre
da minha à tua mão
e neste meu brando cantar.

Olha, minha mãe, o que te digo:
não serão as palavras nem ilha
nem porto de abrigo,

nem serão nem perdão nem castigo —
mas é nelas a música que quero filha,
e que serena agora assim escrevo contigo.

 

 

Copyright © Nina Light CC-BY-NC-ND

 

 

 

Infância

 
 


 

Esquece-me já o tempo das rosas –

rosas meninas, de toucado
de um pérola rosado
como as coisas pequeninas.

Esquece-me. E fica-me só a doçura
de um dia me ter lembrado.

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


 
 
 

este perder

 
 


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quedo-me, a mão esvaziada e fria
e já nada do teu olhar,
nem mesmo o uma vez eco
do meu nome no teu ser

e perco-me eu assim
de um seco calar,
de um perder perdido e sem norte

um perder depois de mim
em que só mesmo tu ou a calada morte
me poderão algum dia encontrar.

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND


 
 
 

águas

 
 


Raindrops on water

há dias assim
feitos de um cansaço
baço e com sabor a bafio,
dias em que as horas
são rio
grossas e turvas
e sem fim.
há dias assim.

há dias
de manhãs sem relento
as mãos sem assento
e o olhar
a quedar-se quebrado
pelas tardes infindas
de inúteis romarias
onde tudo é passado.

há dias assim,
águas destino e fado
sem fundo e sem fim.

 
© Nina Light CC-BY-NC-ND


 
 
 

A Sabedoria da Avó

 
 


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Mandava-a a Tia às compras à tasca do senhor Américo, as moedas e um papelito escrevinhado embrulhados cuidadosamente num lencito de assoar desbotado, as pontas atadas em cruz. Era como que um ritual. Lista, moedas, lenço, pontas atadas, advertência.

– “Pega. Dás-lhe o papel, pedes que assente lá o preço de cada coisa e quanto tens a pagar, dás-lhe o dinheiro quando ele te der o embrulho, conferes o troco e embrulhas tudo no lenço outra vez, mas à frente dele, ouviste? Ouve bem, à frente dele, que é para ele ver bem. Tomaste assento no que te digo?”

Ela sabia melhor do que perguntar porquê outra vez. Parecia-lhe tudo trabalho desnecessário. Ninguém mais fazia as coisas assim; chegavam, davam as boas tardes ou as boas noites, pediam, pagavam, metiam os trocos aos bolsos e saíam de embrulhos debaixo do braço ou com o vinho ou o petróleo das candeias ou dos motores de rega a balançar dos dedos. Da primeira vez que perguntara não ficara esclarecida, e não seria por perguntar mais vezes que a história mudaria e lhe diriam fosse o que fosse.

– “E aqui está o ‘jerican’ para o petróleo. Cuidado não chegues à roupa ou à pele, porque depois não há quem tire o cheiro. À frente dele, não te esqueças.

– “Ó Tia, mas porque é que tem que ser assim? Porque é que não posso levar o porta-moedas, como nos dias de feira?”

– “Porque não. Porque é melhor assim como te digo. Acredita. Anda lá. Vai.” – Mas em vez disso ela demorara-se a ouvir o resto da conversa, encostada ao joelho da avó que a fazia contar e recontar dinheiro, para ter a certeza que ela não se enganaria.

– “Ó Zita, mas tu achas mesmo que ele ia enganar a pequena?”

– “A pequena exactamente é que eu acho que ele há-de enganar, e com a maior das desfaçatezes! Bicho ranhoso como aquele, oh, oh, isso é que sim. Aquilo é rês que não faz ideia do que é ser honesto, nunca fez e não há-de ser agora depois de velho que há-de aprender.”

– “Apre, Zita, que ninguém guarda um ressentimento como tu! Esquece, mulher, esquece! Já vai sendo tempo.”

– “Esquecer é bom para quem tem como. Aquele canalha…”

– “E então tu achas que é por fazeres a menina atar tudo no lenço bem à vista dele que ele vai deixar de ser ladrão? Tu às vezes parece que nem pensas. Dez gramas aqui, vinte ali, meio decilitro no petróleo ou no vinho, e quem dá por ela, ou lhe dirá seja o que for? E se disserem, para a próxima fará ainda pior. Ora, tem juízo, Zita! Nem parece coisa tua!”

A Avó dessa vez não se metera na conversa. Sentada na sua cadeira de canto da mesa, abraçara-a de um braço só em torno da sua cinturinha de menina, aconchegara-a de encontro aos joelhos ossudos, e continuara a fazê-la contar as moedas.

– “Anda lá, vamos, agora dá-me o troco de 2 e 83 centavos para 5 mil reis.”

E ela dera. Dois e oitenta e três, dois e oitenta e cinco, dois e noventa, três, quatro, cinco escudos. E a conversa continuara na cozinha, o Tio e a Tia às voltas sempre da mesma coisa. Fosse lá o que fosse que o senhor Américo tinha feito, seria coisa grossa, ou a tia decerto não se teria zangado assim. É que era preciso muito para fazer a Tia zangar-se… Até que a Avó tinha posto cobr à conversa e à questão.

– “Ó Mana, deixa-te lá disso. A remexer no esterco velho como se fosse coisa nova. Deixa lá ficar isso tudo no passado, que é onde fica melhor. Aconteceu, pronto, o que está feito está feito e não há volta a dar-lhe, por mais que tu continues ressaibiada com o homem.”

Todos se haviam calado. O Tio, sentado como sempre no seu cadeirão ao lado da fogueira, remexera um pouco mais as brasas com um pauzito e tossicara para o lenço enrolado na mão. A Tia acabara de escrever a lista das compras, e começara a atar tudo no lenço.

– “A menina está pronta, não se enganou num único troco. Ouviste, São?”

– “Ouvi, ouvi. Anda, anda cá. Pega.”

Ela pegara na trouxita de lenço que a Tia lhe estendera, e dirigira-se lentamente para a porta. Ao passar perto do cantito onde se sentava a Avó, ela agarrara-a de novo pela cintura e aconchegara-lhe as pontas rebeldes de cabelo por entre as madeixas da trança meia desfeita. Agarrara-lhe então a mãozita repleta de lenço atado entre as suas e, deitando um olhar breve à irmã especada de braços caídos no meio da cozinha, dissera-lhe com um ar de implacável finalidade:

– “Lembra-te sempre disto, que te fará bom proveito: só acaba enganado quem julga que não se engana nunca.”

Devagarinho, a avó metera o molhito atado do lenço dentro do porta-moedas novo e fechara as orelhitas com um clique metálico. Entregara-lho de volta em mão com um sorriso e um piscar de olhos.

– “E agora vai, anda. Corre.” – Acrescentara. E ela fora.

 


© Nina Light CC-BY-NC-ND
 
 
 

Os cactos das janelas

 
 


– “As janelas são os olhos de uma casa.” – Dizia-lhe a tia, convicta, peremptória, de um peremptório estranhamente feito de doçura e graça pelo meio das palavras esparsas. Ela olhava a velha mulher, esguia e adunca como haste de milho painço curvado ao vento de verão, e perguntava-se como tudo podia ter um ar tão final, tão decisivo, e ser assim tão brando e fácil, como se de barro maleável ou massa de pão. Era esse o dom da tia: falar a maior autoridade com a maior brandura e gentileza. – “Têm que parecer sempre bonitas, bem apresentadas, todas arranjadas…”

Falava, e de seguida perdia-se na tarefa em mão, e naquele cantarolar baixinho e permanente de canções que nunca seriam nem nunca haviam sido, intercalado daqueles surtos de assobios tentativos, assobios que eram assim como os úúús do vento a assoprar pelos intervalos da telha vã. Ambos, cantarolar e assobios, que tanto irritavam o tio. E a avó, quando calhava, e as duas se pegavam de palavras.

A bem pensar, que tanto irritavam toda a gente, até mesmo o pai. Sobretudo o pai. A mãe não dizia nunca nada. As primas, essas, achavam que era uma boa maneira de saber por onde a tia andava, para não terem surpresas e não serem apanhadas no que quer que fosse que haviam engendrado para esse dia. E ela, ela não achava nada. Ouvir o que a tia deixava assim atrás de si ao vento, por onde ia, por onde andava, enquanto fazia as coisas que fazia, era como que um abraço constante, um lastro benvindo do que é reconhecido, familiar, de conforto e segurança. E para além do mais até achava engraçado que quem lhe tentava ensinar que assobiar não era coisa própria de uma menina, assim se perdesse sem se dar conta em débeis e desajeitados assobios.

– “Tia, ‘tá a assobiar!” – Lembrava-lhe ela então de risinho maroto em punho.

– “Não, não estou, que isto não é assobiar. Que eu nunca aprendi a assobiar. Ando é cá nas minhas cantarolices, que é para não andar sózinha.”

Mas assobiava, e ela bem o sabia. Embrenhada nas horas e nos dias quase iguais de manhã à noite e uns aos outros, dias em que gestos e palavras se repetiam como se fossem liturgia inescapável, a tia cantarolava baixinho e assobiava.

– “Mas a tia não está sózinha, porque eu estou aqui consigo…”

– “Pois estás! E não é que me tinha esquecido de ti? Estás tão caladinha como um ratito de despensa…” – E passava-lhe a mão pela trança. – “Não andas a preparar nenhuma, pois não?”

Ela sentia-lhe o sorriso ainda mesmo antes de o ver. E a velha então curvava-se até ela e plantava-lhe um beijo breve e fugidio no cimo da cabeça.

A tarefa do momento eram as janelas da sala de jantar de cima. Aquelas que tinham floreiras de cimento que o Sr. António tinha habilmente adicionado do lado de fora. Pareciam suspensas das paredes como que por feitiço ou milagre. Quando as olhava da rua, bem debaixo delas de pé na quelha das águas, mesmo rentinha às paredes das lojas, sempre se perguntava porque não caíriam.

Do lado de dentro, por mais que tentasse os olhos mal lhe chegavam ao parapeito da janela. Empoleirava-se nos biquitos redondos dos pés pequenitos, e mesmo assim não conseguia ver. Os dedos em garra aferroados ao rebordo da madeira, procurava o cimo dos rodapés para mais altura – mas mesmo assim não chegava.

– “Tia, posso ir buscar o banquito…?” – Também isso era um ritual.

– “Para que queres tu o banco? Ainda cais…”

– “Não caio não. É para ver as plantinhas da Tia… São tão estranhas…”

E a tia sorria e lá ia buscar ela o banco, e punha-lho no vão imenso da parede onde ela o pudesse trepar em segurança, e nele se ajoelhar para poder ver o conteúdo das floreiras. Lado a lado, ambas inspeccionavam as pobres coitadas.

– “Que planta é esta, Tia?” – Era uma coisa assim como um alfobre descontrolado de bolinhas atarracadas e cobertas de finos espinhos que mais pareciam lã.

– “São cactos.” – dizia-lhe a tia. – “Plantas das zonas desertas.”

– “Mas aqui não é um deserto!” – Declarara ela ufana e confidente: isso tanto ela sabia, porque sabia o que era um deserto.

– “Pois não. Mas as plantas dão-se bem aqui, e para mais dão jeito.”

– “Porquê?”

– “Porque não precisam de muita rega, e para mais apanham água da chuva que baste da que cai das telhas, e assim dão pouco trabalho e nunca morrem. Dá para termos sempre plantas nas janelas.”

– “E dão flores? Gostava de ver…”

– “Olha, este aqui dá. Umas flores amarelas. Este não. As daquele são cor de rosa e miúdas, não têm vista nenhuma. Quando fôr o tempo delas florirem, logo te mostro.”

– “E que planta é esta aqui?”

– “Ah, essa é uma carnuda. São plantas das montanhas. Dão-se bem com os cactos.”

Demorava-se ela um pouco mais pelo banco, a olhar tão díspar colecção. Plantas do deserto, com plantas da montanha. Que até ela sabia que desertos e montanhas nem viviam lado a lado, nem tinham nada a ver um com o outro. E se umas eram plantas do deserto e as outras plantas das montanhas, quereria isso decerto dizer que cada uma se dava no seu lugar, onde quer que fosse, e que nem as da montanha andavam pelo deserto, nem as do deserto brotavam raízes nas montanhas. Seria assim como a fauna e a flora nos cromos que o tio coleccionava para ela – foram essas as palavras que o tio lhe havia ensinado para querer dizer animais e plantas. Cada sítio tinha a sua fauna e a sua flora própria, dissera-lhe o tio, e mostrara-lhe os cromos e as ilustrações daquelas revistas de capas amarelas de que ela tanto gostava. Tal como tinham gentes diferentes, ele também já lhe tinha ensinado isso. E contudo… Dão-se bem com os cactos, dissera a tia, e de repente ela começara a rir à gargalhada. A ideia de que as plantas pudessem despalavrar, discutir, guerrear como as pessoas! Como andavam à guerra lá naquele sítio, que fazia os homens e os rapazes desaparecerem. Era impossível, e as floreiras da tia bem o provavam: plantas das montanhas e plantas dos desertos, felizes lado a lado, contentes com as águas do telhado e uma frente de janela…

– “Oh, que te deu…?! De que te ris assim?”

– “Ó Tia, da ideia que as plantas pudessem começar a andar à guerra umas com as outras nas janelas…” – E a tia tinha-a puxado para ela, o braço ossudo e forte em torno da cintura dela. E ela, como hera que se abraça a uma casa, tinha-se-lhe entrelaçado ao torso curvado e seco de carnes, num abraço como se todos os abraços pudessem acabar nessa tarde e já não voltar nunca mais a haver. Eram assim os abraços naqueles tempos. Todos eles. E tinham então ambas rido, como se o riso fosse ar que se respirasse.

© Nina Light CC-BY-NC-ND


Os Olhos e as Mãos

 
 


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Pele de pano fino
do mais puro linho
ou de seda ou cetim,
tecido de fios
brandos
desafios dos anos
e do nébulo destino,

casulo
de linho engelhado
desajustado
da luz infinda que esconde
ainda.

Assim o cabelo
que sempre foi seu desvelo
e orgulho: é a coroa de glória
de uma mulher
, como dizia
a tia e ela registara
na sua inocência quase simplória
da infância,
quando o seu futuro júbilo fora
ainda e só
uma longa e negra trança
acabada num nó.

Só mais tarde fora
juba, jóia, coroa
do mais negro e cativo
ébano, mas refulgente como a luz do dia:
mas isso fora pela mesma altura
em que ela ainda ria
e quando ria jogava o cabelo ao vento,
sem tento nem assento,
a boca aberta

(uma menina de bem nunca ri
assim
, dizia-lhe também a tia,
mas isso ela nunca ouvia)

e a cabeça inclinada para trás
como se o seu riso mais não fosse
que oferta generosa e doce
a uns quaisquer deuses
de um seu Olimpo privativo.

E então ria e agitava as madeixas
de mansinho, com o riso,
doce embalo pendular
como que a marcar tempo
num gesto desatento
e jeito ímpar –
e quando voltava a olhar em frente
caíam-lhe elas aos molhos
pela face, pelos olhos,
como que a resguardá-la
do resto da gente
e mesmo de quaisquer deuses
de outros alheios e ilusórios Olimpos.
Por entre o cabelo e o riso
ouviam-se por vezes as queixas
de quem, o olhar cativo,
não sabia e queria
o que saberia ela enfim
que ninguém mais saberia
assim.)

Hoje raramente ri como ria
dantes, e não será porque não queira;
mas a cabeleira ainda lhe é coroa
e rio de prata reluzente, finos
e diáfanos fios de precioso metal –
a metáfora desgastada,
tão cansada quanto ela.

Queda-se breve, os olhos errantes
pelo mais ínfimo dos instantes:
e já não fala das mãos.

 

© Nina Light CC-BY-NC-ND